ENTRE PRIMOS - PARTE 05

Um conto erótico de Lord D.
Categoria: Homossexual
Data: 21/01/2016 13:52:45
Última revisão: 21/01/2016 13:53:37
Nota 10.00

5. O CIÚME É INOXIDÁVEL - Capítulo dedicado ao leitor Bolt

Meu rosto estava queimando em brasa. Não sei como me mantive acordado depois daquela porrada, acho que a tensão do momento me garantiu uma resistência extra, mas com a redução de adrenalina, e o relaxamento dos músculos, causado pela água do banho que estava tomando, me fizeram sentir a extensão da força de Giuliano. Doía pra caramba, eu não podia negar, mas estranhamente, a minha consciência parecia mais tranquila, como se eu tivesse acabado de saudar um débito com o cosmo, ou pelo menos ter dado uma entrada generosa, reduzindo assim o valor das demais prestações.

Terminei o banho e fui fazer um inventário dos danos. Felizmente meu rosto se mostrou mais resistente do que eu presumia. O lado do soco estava vermelho, e o canto esquerdo da minha boca, bem com o início da extremidade do lábio superior, estavam inchados, e prenunciando uma mudança para o tom de roxo, mas nada que pudesse pôr uma dúvida, uma prevista desculpa de que eu sofri um acidente doméstico.

Depois de tomar um relaxante muscular e passar um gel anti contusão no rosto, fui deitar um pouco, mas não consegui dormir nem um por um segundo. Meu rosto latejava e formigava, se concentrando em uma unidade de dor, mas isso não era o que mais me incomodava. As memórias envolvendo a mim e a Giuliano, eram que me perseguiam como um espectro. Há dez anos, meu primo jamais me bateria, pelo contrário, era ele que sempre aguentava as minhas pancadas. Me sentia completamente protegido e amado, quando estava ao seu lado, e essa segurança e alento, eram praticamente desconhecidos pelo meu coração, e a ausência de ambos, era o agente patológico que tanto me causava enfermidade. Enfermidade da alma. Essa é difícil de curar.

Ainda na minha cama, conseguia ouvir movimentos no quarto de Giuliano. Percebi quando ele trancou a porta do seu quarto pelo lado de fora, e pelo cheiro forte e maravilhoso que invadia o meu quarto, com certeza ele estava vestido para sair. Por um momento tive a impressão de senti-lo parado em frente à minha porta. A maçaneta da porta se moveu levemente, mas depois voltou para o seu estado inicial, e a sensação de ter alguém parado ali, passou. Acredito que ele queria ver como eu estava, mas desistiu em seguida. Isso fez me sentir bem, pois, afinal, ele ainda se preocupava comigo, mesmo que apenas um pouco, isso significava que eu não era um total defunto em sua vida.

Mais ou menos, uma meia hora depois, resolvi descer. Antes me olhei mais uma vez no espelho, e constatei que o inchado estava mais acentuado. Vovó estava sozinha na varanda, lendo um livro tão concentradamente, que nem percebeu minha aproximação sorrateira. Só depois que me sentei ao seu lado, é que ela perguntou, sem olhar para mim.

- Achei que você ia sair com o Giuliano?

- Não creio que era do desejo dele que eu fosse – respondi, abaixando a cabeça e estudando o tapete sob os meus pés.

- É possível... – ela disse, ainda sem erguer os olhos. – Mas não me lembro desse Benjamim que acata ordens, quando na verdade quer fazer exatamente o contrário daquilo que lhe exigem, principalmente se tratando de alguém que não exerce nem um tipo de autoridade sobre ele.

- As pessoas mudam, certo?

- Algumas, sim – vovó respondeu. – “Mudar” é uma necessidade de sobrevivência. Giuliano mudou, porque essa era única forma dele sobreviver... – ela parou e olhou para mim. Sua reação inicial foi de espanto, ao me ver com o rosto daquela forma, mas não disse nada.

- Eu devia esse soco a ele – respondi, sentindo sua pergunta no olhar.

Minha vó fechou o livro, e o pôs de lado e veio me dá colo. Deitei minha cabeça em suas pernas, enquanto ela fazia um carinho no meu cabelo. Ficamos em silêncio durante um bom tempo, até que ela começou a me contar:

- Não tenho dúvida de que você sofreu muito depois daquela tarde infeliz, há dez anos, mas garanto que Giuliano foi destroçado, quase à morte. E foi isso que eu achei que ia acontecer. Seu primo foi sugado por uma depressão tão profunda e obscura, maior do que todo o sofrimento que já vi. Seus olhos foram tomados por um imenso e silencioso vazio. Ele parou de comer, de sorrir, de brincar, de viver. Muitas situações me levaram a esconder todas as facas da casa, ou outro qualquer objeto cortante. Perdi as contas de quantas vezes tive que embalá-lo, para que conseguisse dormir.

- E como ele superou tudo? – perguntei um pouco sem graça, como se a pergunta denunciasse a minha culpa.

- Se dedicou muito aos estudos – minha avó responde, pausando antes de continuar: – Logo na sequência do que aconteceu, ele se assumiu para mim. E fiquei muito feliz pela sua franqueza. Mas nunca foi mais o mesmo. Cursou Veterinária e montou um consultório e uma loja pet, que tem prosperado muito rápido até, a julgar pelo pouco tempo de funcionamento. Mas no campo do coração, acho que ele só teve um namorado sério. Henrique era o nome dele, se não me falhe a memória. Pareciam se dar muito bem, achei que até resultaria em casamento.

Já não simpatizei desse Henrique, só pelo nome. Devia ser um “tipinho” como o tal do Sandrinho, que estava no colo do Giuliano.

- E por que o relacionamento não perdurou? – perguntei, muito curioso.

- O Henrique foi embora, pois ganhou uma bolsa de estudo na Irlanda, então o Giuliano achou que um relacionamento a distância não seria uma boa coisa.

- E... Ele sofreu muito, com essa separação? – perguntei, fingindo total despretensão.

- Qual o sentindo da sua pergunta? Não vai me dizer que sente ciúmes do seu primo, depois de dez anos? – minha avó me fuzilou com um olhar malicioso.

- Ciúmes?! Que ideia mais sem sentido, vó – eu falei com raiva. – Caso a senhora não saiba, eu estou noivo.

- Verdade? Meus parabéns! E qual o nome dele?

- Não é ele, é ela, isso é óbvio – respondi altamente ofendido.

- Ah, certo – ela fez um ar de quem ia engolir o que ouvira, pois não queria discutir aquele assunto.

- Bom, eu acho que vou dormir um pouco – disse me levantando.

- Achei que você ia sair – observou minha avó.

- Eu até pensei, mas não acredito que seja uma boa ideia, dada as atuais circunstâncias – mal terminei de dizer a frase, dois faróis apontaram na curva da estrada, e uma S10 azul surgiu, entrando pelo portão que estava aberto. Era Fernando.

- Benjamim, ainda não está pronto? – ele gritou através da janela do carro, buzinando de forma bastante incômoda.

- Não estou muito no pique – eu disse.

- Ah, corta essa! Não vai me dizer que o Giuliano te proibiu de sair? – ele era bom nesse jogo.

- Só não estou, afim! – decretei já irritado.

- Definitivamente eu não aceito um não como resposta, quando estou muito interessado em algo – Fernando disse, buzinando o carro sem parar.

- Não vai me vencer com essa tática – eu disse, cruzando os braços.

- Vou continuar buzinando, mesmo assim – Fernando afirmou. – Só não se esquece, que no estado de saúde da sua avó, esse barulho pode incomodar ainda mais. Mas ela é sua avó e não minha, então é você quem sabe.

E as buzinadas continuaram, cada vez mais infernal. Percebi que a minha avó realmente estava muito incomodada aquilo. Não tinha jeito mesmo, sabia que Fernando ia continuar com aquela pressão. Ele era desses tipos de garoto bem birrentos.

- Tudo bem! Você venceu! Eu vou! Agora para com esse inferno sonoro – disse, entrando para dentro de casa para me trocar.

Já que era para sair à noite, e provavelmente encontrar com o Giuliano, eu resolvi provocar. Pus uma calça jeans clara, muito colada (quando digo colada, quero dizer tipo segunda pele), que fazia minhas coxas parecerem o dobro mais torneadas, e a bunda ficar bem talhada, uma blusa creme, sobreposta por um blazer escuro, bem moderninho. A minha mãe me deixaria nu, se me visse vestido naquela calça.

- Henrique, hein? Aposto que ele não chega aos meus pés – disse para mim mesmo, enquanto analisava o meu reflexo no espelho do quarto.

Saí do quarto, ainda ouvindo a buzina do carro de Fernando, que berrava agudamente, exigindo que eu me presentasse o quanto antes.

- Tá bom! Não precisa continuar com esse escândalo! – repreendi Fernando, assim que surgi na porta outra vez. Ele estampou um sorriso sacana no rosto, assim que me viu.

- Tchau, vó – me despedi dela com o beijo na testa.

- Tchau meu filho, pensa bem sobre tudo que conversamos – ela me disse, antes de entrar.

Apenas confirmei com a cabeça, descendo o pequeno lance de escadas, e rumando em direção a Fernando, que ainda preservava o mesmo sorriso malicioso.

- Bem, vendo você vestido desse jeito, não posso cometer o pecado de não de propor uma nova rota – ele desceu do carro, pondo a mão no queixo enquanto me esquadrinhava. – Eu conheço um motelzinho aqui perto que é...

- Motelzinho? Se você não parar com isso, a nova rota que eu vou tomar, é a do meu quarto, sozinho, é claro – disse bem prepotente, e paguei caro por isso, pois uma resposta que eu não esperava, veio em seguida.

- Não vai me dizer que você está todo gostosinho assim para o Giuliano? Fala sério! Achei que vocês já tinham superado aquela criancice. Mas se bem que pensando agora, não me lembro de ter visto ele tão irritado, antes de você chegar.

- Olha, se for para ficar conversando idiotices, eu prefiro ir dormir – eu disse, dando meia-volta, mas Fernando me segurou pelo braço, detendo-me.

- Calma tigrinho. Se prefere que a gente não fale no chato do Giuliano, nós não falamos – Fernando fez um carinho na minha bochecha.

- Tigrinho? – indaguei revirando os olhos – É melhor eu entrar nesse carro antes que ouça mais uma asneira.

Dei a volta e entrei no lado do carona. Fernando me acompanhou com os olhos até eu bater à porta do carro, então assoviou e comentou:

- Comissão de trás: 10

- Imbecil – resmunguei.

- Ei, amorzinho, que foi isso no seu rosto? – Fernando perguntou o inevitável. Apesar de eu ter atenuado com uma cobertura transparente, o inchaço ainda era visível.

- Eu escorreguei e bati com o rosto na porta do banheiro.

- Uma porta bem forte e de cabelo loiro, né? – Fernando disse. – Você e seu primo ainda são os mesmos moleques de sempre.

***

Parecia ter voltado duas décadas atrás, quando vi surgir diante de mim, uma casa com decoração que lembrava um pouco o country e a época de ouro do rock. Dava uma sensação de aconchego e nostalgia. Um letreiro florescente nomeava o lugar: ESPARTA.

- Parece ser bacana? – eu disse, correndo os olhos pela fachada. Notei que havia muitos carros estacionados ali, e que risos, conversas e muita música se misturavam em uma sintonia caótica e inebriante.

- Nossos orgulho municipal – Fernando desceu do carro, apontando para o lugar chamado ESPARTA, como se tivesse me apresentando a um amigo seu muito achegado. – O que estamos esperando? Vamos!

Desci do carro e o acompanhei casa a dentro. Um ambiente era propositalmente mal iluminado. Decoração rústica, mas bem bolada, com algumas mesas de sinuca espalhadas pelos cantos, sofás bem aconchegantes dispersos por outros, jogos de luzes, que nos intervalos de claridade, revelavam que a casa estava bem cheia.

- Quer beber alguma coisa? – Fernando me perguntou, de uma forma bem gentil.

- Não seria uma má ideia – eu respondi, abrindo um leve riso – Só não vai batizar, hein? – fiz piada quando ele saiu para buscar a bebida.

- É melhor não me dá ideia, Benjamim – Fernando olhou para trás, lambendo os lábios.

“Cretino”, pensei.

Tocava “Creep” do RadioHead, quando os meus olhos inconvenientes, encontraram o Giuliano, em uma das mesas de sinuca, exalando toda sua testosterona, em uma regata preta, que parecia ter sido sobreposta por uma camiseta xadrez, que agora amarrava sua cintura, por cima de um jeans. Sandrinho estava ao seu lado, pulando feito uma perereca drogada, a cada bola encaçapada. Devia estar fantasiando o Giuliano o encaçapando.

- Olha aqui sua bebida – Fernando me acordou do transe, entregando-me uma caneca com chope.

- Ah, obrigado – recebi a bebida, um pouco desconcertado. Tentei fingir que não estivera secando o outro, mas foi impossível, pois ele devia ter visto tudo. Mas em vez de se chatear, Fernando fez uma coisa completamente inesperada: fui puxado por ele, como se tivesse sido arrastado por um gancho, para um beijo molhado e profundo. Ele parecia ter invertido a polaridade de seus lábios, para criar uma adesão tão perfeita.

Talvez por causa da minha carência, somada à qualidade do beijo do Fernando, não o interrompi o nosso amasso, até finalizarmos em longos selinhos. Instintivamente, assim que desgrudei os meus lábios dos de Fernando, corri os meus olhos na direção de Giuliano novamente, e dessa vez o flagrei me encarando como uma águia diante de uma presa. Mesmo sendo pego pelos meus olhos, meu primo não desviou o olhar, o preservou em desafio.

- Por que você fez isso? – perguntei para Fernando, sem olhar para ele, quase silabando as palavras.

- Não me incomodo que você ainda esteja afim do idiota do Giuliano, mas eu preciso te ensinar alguns truques de sedução, e fazer ciúmes está no topo do manual.

- Não seja ridículo! – olhei para Fernando finalmente. – Não quero nada com Giuliano!

- Que tal a gente pular essa parte? – Fernando se mostrou impaciente. – Odeio quando subestimam a minha inteligência.

- Eu não devia ter vindo aqui – fiz menção de sair, mas Fernando, disfarçadamente, se interpôs no meu caminho.

- Se sair agora, vai parecer que o fato do Giuliano ter visto o nosso beijo, te causou arrependimento de tê-lo feito, deixando o seu priminho certo de que você ainda é caidinho por ele, e isso você não quer, ou quer?

- Por que você acha que tudo que eu faço ou penso em fazer, diz respeito ao Giuliano? – indaguei rispidamente. Se tem uma coisa que não suporto, é ser visto como um dependente emocional.

- E não é? – Fernando deu um gole em sua bebida, depois de dizer.

Por mais que eu quisesse ter respondido incisivamente que não, a resposta não veio tão fácil como deveria. Fiquei encarando Fernando, com um olhar que se fosse uma arma, teria o alvejado sem qualquer chance de defesa.

- Esse papo de Giuliano está azedando a nossa noite, vamos deixar o metido a machinho para lá, e curtir. – dizendo isso, Fernando me puxou pela cintura, mas antes dele repetir o beijo, eu dei um gole na minha bebida, ocupando a minha boca.

- Não vai rolar – declarei para Fernando, retirando suas mãos da minha cintura. O mesmo mostrou resistência no começo, como se esperasse que eu pensasse duas vezes e no final não conseguisse resistir à tentação de beijá-lo novamente. Contudo, ao perceber que eu falara realmente sério, ele largou a minha cintura e se afastou, sem retirar os olhos de mim. Olhos cheios de convite para mais tarde, caso eu mudasse de ideia.

Olhei de esguelha para direção de Giuliano e percebi que ele acompanhara toda cena, com uma atenção canina. Por alguma insanidade, decidi ir até ele, e pela mudança de expressão que seu rosto sofrera instantaneamente, meu primo não imaginara que eu teria a ousadia de me juntar a ele.

- Boa noite – disse, ficando bem próximo da mesa de sinuca. Alguns murmúrios, responderam a minha chegada, sem dar tanta importância à minha presença. Sandrinho me olhou com um misto de incômodo e desconfiança.

- O seu namorado te deixou sozinho? – Giuliano sussurrou no meu ouvido, enquanto passava por trás de mim, à procura de um ângulo melhor para mirar na bola.

- O que você disse? – fingir não ter entendido.

- Ah, é verdade, você não é do tipo que namora – Giuliano completou, temperando as palavras como muita malícia.

- Qual o seu problema? – falei alto – Só vim aqui a título de gentileza.

- Pôs enfia sua gentileza...

- Giuliano! Me ensina a encaçapar a bola – esganiçou Sandrinho, pulando na minha frente, quase fui esmagado pelos seus pés frenéticos.

- Claro! – Giuliano e se colocou atrás da “coisinha”, colando os seus corpos perfeitamente, enquanto inclinava ambos para frente, ajeitando Sandrinho na posição certa. Eu só não sabia se era a posição para jogar ou foder. Ele fazia tudo isso, me encarando. Como se quisesse esfregar na minha cara tudo que eu estava perdendo.

Fiquei apenas observando, imitando um semblante de quem não estava sendo incomodado com aquela situação. Por dentro eu era um Vesúvio, e desejava que Giuliano e “a” Sandrinho fossem Pompéia.

- Xi, que joguinho mais morno esse de vocês – Fernando chegou por trás de mim, trazendo duas canecas de chope. – Toma, Ben – ele me entregou.

- Obrigado – mal agradeci, já havia empurrado metade garganta a dentro. Era daquilo que eu precisava.

- Então, gatinhas, que tal colocarmos pimenta nisso – Fernando disse, enquanto passava a mão pela minha cintura com toda propriedade.

Quase cortei a ousadia do abusado, mas me detive ao ver a cara de raiva com que Giuliano olhou para a mão de Fernando me possuindo, como um macho que delimita seu território. Podia ver seu ciúme estampado nas veias que saltavam dos seus braços, enquanto o meu primo contraía os músculos e enrijecia mais ainda o maxilar.

- Vamos jogar em dupla – propôs Fernando. – Giuliano e Sandrinho e eu com Benjamim.

- E qual o prêmio estaremos disputando? – o tal Sandrinho perguntou dando pulinhos.

Fernando esfregou as mãos antes de responder:

- O vencedor escolhe um castigo para os perdedores.

- Para mim fechou – disse Giuliano, apertando a mão de Fernando, mas o seu olhar de lobo-mau estava fixo em mim.

- Mas eu não estou a fim de participar de algo estúpido como isso – eu protestei, já girando os calcanhares para me afastar dali.

- Não poderia esperar outra coisa sua, que não fosse “covardia” – Giuliano deu muita ênfase à última palavra.

Ainda pude ouvir uns risinhos da coisinha que o acompanhava, antes de me virar e dizer com firmeza e convicção falsas:

- Disputa aceita!

- Assim é que eu gosto! – Fernando me deu um beijo na bochecha.

Fernando começou a disputa encaçapando de primeira. Sua empolgação foi tão grande, que ele tascou um beijo repentino na minha boca. Não tive nem tempo de reagir diante daquilo, fiquei apenas em choque.

- Dá para continuarmos! – Giuliano bradou.

Quando consegui desgrudar a minha boca da de Fernando, olhei imediatamente para o meu primo. O que vi foi o mais profundo desprezo em seus olhos. A partir daí Giuliano virou uma máquina da sinuca.

Fomos massacrados.

- Então, agora que vocês tiveram essa perda vergonhosa, o que vamos exigir como castigo, hein? – Sandrinho nos olhava com malícia. – Podíamos pedir para vocês fazerem um strip-tease. O que acham?

- Por mim, sem problemas. – Fernando se antecipou.

- Ficou maluco? É claro que eu não aceitaria – fui firme em dizer.

- Tentando esconder alguma visão desinteressante? – Sandrinho disse me olhando com superioridade.

- Se na sua casa tiver muitos espelhos, você deve ser um perito em visões desinteressantes – respondi.

A bicha má apenas me olhou com a cara de quem chupou um cacete azedo.

- Vamos fazer o seguinte então, a próxima música que tocar, eu e Benjamim vamos cantar – Fernando propôs, apontando para um canto onde se encontrava um karaokê.

- Vocês façam o que quiser – Giuliano largou o taco. – Não me interessa – ele nos deu as costas e saiu em direção ao bar, a cadelinha dele correu atrás.

Que visão linda foi vê-lo pelas costas, andando, com aquele bundão empinado, bem talhado pelo jeans claro surrado. Os braços reluzentes de suor, desnudos. Vendo-o o tão distante de mim, e frio, me bateu uma vontade louca de chorar com desespero. Lembrava-me como era bom ser protegido e cuidado por ele na nossa infância e início da adolescência. Como teria sido se eu não tivesse sido tão covarde? Enganei-me quando achei que não era mais carente daquele amor.

Despertei das minhas conjecturas, ao ser puxado abruptamente por Fernando. Deixei-me ser levado, enquanto olhava o meu amor de infância recostado no balcão do bar. Nem percebi que Fernando estava obstinado com aquela ideia maluca de cantar no karaokê.

- Pega, Ben – ele me entregou um microfone. Recebi no automático. – Se liga que a música que está acabando. A próxima nós vamos cantar.

Parecia brincadeira, mas não era. Foi “Every Breath You Take”, do The Police que começou a tocar. As pessoas pararam o que estavam fazendo, e pasaram a prestar atenção em mim e Fernando.

Quando comecei a cantar as primeiras palavras música, Giuliano girou abruptamente, e com os olhos arregalados ficou como se estivesse hipnotizado. Isso me deu ânimo para cantar com mais força. Ignorava completamente se Fernando estava me acompanhando ou não. Eu tinha certeza que Giuliano estava lembrando que dançamos aquela música no dia do seu baile de escola. E que naquela mesma noite ele me deu a aliança de capim e ficamos namorados oficialmente. Eu via em seus olhos que aquela música ainda mexia com ele, como mexia comigo. Mas de repente, ele largou o copo de chope e saiu da “Esparta”. Por alguns segundos vacilei na letra da música, por conta da atitude de meu primo, mas concertei o erro e continuei a cantar normalmente.

Fomos muito aplaudidos. As pessoas pediram mais, e se dependesse de Fernando continuaríamos cantando, mas eu resolvi que era hora de ir embora. Ele tentou me dissuadir da ideia, mas quando disse que ia mesmo sem ele, Fernando resolveu ceder. Disse que se ele desviasse do caminho da minha vó eu faria o carro derrapar. Ele acreditou e me trouxe de volta para a casa, sem tentar nenhuma gracinha.

Entrei em casa, e fui mergulhado no mais profundo silêncio. Quase todas as luzes estavam apagadas. E eu sabia que Giuliano estava em casa, pois passei por seu carro, parado na frente do sobrado. Só torcia para que ele não tivesse trazido aquele sujeitinho. Não sei se suportaria ouvir Giuliano comer ele ali ao lado. E tenho certeza que ele não faria a menor cerimônia por saber que eu estava tão próximo de seu quarto, pelo contrário.

Tirei os sapatos e fui direto para o meu quarto, mas antes de entrar me aproximei da porta do quarto do meu primo, aguçando os ouvidos ao máximo para tentar ouvir qualquer coisa. Nada. O quarto estava com as luzes apagadas e absolutamente silencioso. Menos mal, pensei. E com esse pensamento consolador, entrei em meus aposentos e tomei um banho demorado. Ainda de toalha fui até a cozinha tentar desencavar alguma sobra de gostosura da Rosa. Quando entrei na cozinha, parei de chofre. Giuliano estava apenas de cueca boxer azul-marinho, com linhas brancas nas laterais. Encostado na pia, ele comia uma banana com voracidade.

- Ah, desculpa – eu fiquei desconcertado, tanto diante de tanta exuberância, como pelo fato de estarmos sozinhos ali. A última vez eu terminei com o rosto detonado.

- Não quis esticar com seu namorado? – Giuliano me perguntou a seco, para a minha incredulidade.

- Entre mim e Fernando não existe e nem vai existir nada – respondi abrindo a geladeira e me servindo de água.

- Ah, esqueci que você é “hétero” – Giuliano se esforçou no tom irônico. – Mas aqui não tem ninguém que possa de comprometer.

- Giuliano, eu estou cansado desse joguinho! – falei bem sério.

- Tá, é? – ele jogou a casca da banana na pia, com força e veio para cima de mim, parando bem próximo do meu rosto. Senti uma intensa descarga no corpo, ao experimentar de seu hálito quente. – Então vai embora – ele continuou, de forma grosseira.

- Não vou! Já disse!

- Olha, como fala comigo, moleque – ele ergueu a mão para mim.

- Bate! Mas dessa vez de verdade – desafiei. – Não é o que você quer?

- Minha vontade é de te matar – ele espumou. – Acha que seu “showzinho” ridículo me comoveu. O que estava pensando ao cantar aquela música estúpida.

- Eu não planejei, mas também não me arrependo – eu disse mais calmo. – Mas me arrependo de não ter sido corajoso para enfrentar a minha mãe. Me arrependo de ter traído todo o nosso amor. E ele ainda queima no meu peito. Mais forte do que nunca.

- Cala boca! Sai daqui! – Giuliano me empurrou.

Afastei-me, mas antes de sair da cozinha ainda disse:

- Saiba que eu também queria me matar.

Quando cheguei ao corredor dos quartos, Giuliano surgiu atrás de mim. Eu já podia imaginar a dor que seria aquela surra, que eu suspeitava que ele estava prestes a me dar. Mas meu primo, em vez disso, me jogou contra a parede com força, sacou a minha toalha fora, e engoliu a minha boca em um beijo com o cumulativo de dez anos.

CONTINUA...

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21/10/2016 17:25:24
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